IBTEL Instituto Bíblico Teológico Elohim

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Evangelho de Marcos

Esse esclarecimento é para todos os estudantes de nosso seminário teológico, e para pessoas que desejam ter conhecimento do Evangelho de Jesus Cristo segundo escreveu João Marcos. É muito difícil para nós professores, explicar detalhadamente todos os pontos teológicos em poucas horas, haja vista, a necessidade  que existe entre os nossos alunos, de não ter material disponível em suas mãos. Por isso, compartilho com vocês alguns apêndices do Evangelho de Marcos para podermos elucidar cada questão que envolve o livro.

O Evangelho Segundo Marcos 

Considerado por alguns estudiosos como o primeiro evangelho a ser escrito, não obstante  tenha sido colocado após " Mateus" o Evangelho Segundo Marcos é o mais curto de todos os evangelho, sendo que vinte e cinco por cento de sua narrativa é dedicada a registrar os últimos acontecimentos da vida de Cristo, a comumente chamada" semana da  paixão", e o restante, de forma diferenciada, dedicados aos feitos milagrosos realizados por Aquele que "[...] tudo tem feito esplendidamente bem [...]",Mc. 7. 37.
Marcos é considerado, um dos evangelhos sinóticos.
O termo sinótico vem de duas palavras gregas, cujo significado é “ver conjuntamente”. Dessa maneira, Mateus, Marcos e Lucas tratam basicamente dos mesmos aspectos da vida e ministério de Cristo. Dos evangelhos sinóticos, Marcos é o mais breve. O Evangelho de Marcos é geralmente considerado o primeiro evangelho que foi escrito, diz Darrell Bock. Embora esse fato não tenha um consenso unânime, a maioria dos estudiosos crê que Marcos foi escrito antes dos outros evangelhos. J. Vernon Mc Gee defende a tese de que Marcos foi escrito por volta do ano 63 da era cristã. Sendo, assim, William Barclay o considerava o livro mais importante do mundo, visto que serviu de fonte para os outros evangelhos e é o primeiro relato da vida de Cristo que a humanidade conheceu. Dos 661 versículos de Marcos, Mateus reproduz 606. Há apenas 55 versículos de Marcos que não se encontram em Mateus, mas Lucas utiliza 31 destes. O resultado é que há somente 24 versículos de Marcos que não se encontram em Mateus ou Lucas. Isso parece provar que tanto Mateus quanto Lucas usaram  o evangelho de Marcos como fonte.                        

O Título do livro

O manuscrito mais antigo que nos preservou trechos do evangelho de Marcos, o papiro Chester Beatty I (p45), do século III, não ajuda a elucidar a origem do título, pois infelizmente só começa em 4.36. Os próximos manuscritos mais antigos já são as famosas testemunhas principais da Bíblia toda, o Códice do Vaticano (B) e o Códice Sinaítico, do século IV. Nestes, o livro tem o título curtíssimo: “Segundo Marcos”. Eles silenciam sobre o conteúdo e só respondem à pergunta: Quem é a testemunha? Isto os copistas não tardaram a compreender e acrescentaram “Evangelho segundo Marcos”, a partir do próximo século. Os Pais da Igreja já tinham encontrado antes este caminho, em seus escritos. Será que o título mais antigo, “Segundo Marcos”, remonta ao próprio Marcos? Será que já constava do seu original? Uma referência autoral como título soava tão estranha naquela época como hoje em dia. Devemos levar em conta, porém, que todos os evangelhos têm o título nestes termos. Mesmo que Marcos tivesse dado um nome tão estranho à sua obra, será que quatro escritores fariam a mesma coisa? As probabilidades não favorecem esta alternativa. Além disso, na Antiguidade não era costume que o autor desse o nome ao seu livro (L. Koep 674.685; Fouquet-Plümacher 275.282). Este resultava do uso que se fazia da sua obra.
O apresentador de um teatro tinha de anunciar a peça de alguma forma, e principalmente os bibliotecários necessitavam de títulos nas obras para poder classificá-las. Muitas vezes eles os derivavam de termos importantes da introdução. Com livros bíblicos agia-se da mesma forma. O “Apocalipse de João”, p. ex., tem seu título de Ap 1.1; as cartas de Paulo, da indicação de destinatário no início, p. ex. “Aos Romanos” de Rm 1.7. Por último, mais uma circunstância favorece nossa proposição de que as indicações de autor não procedem dos próprios evangelistas. Em cartas, era regra que o autor mencionasse seu nome logo no começo; todavia, nos evangelhos, o contrário parece ser o caso. Em Mateus e Marcos não há o menor indício, em Lucas só o “eu” anônimo do autor em 1.3, e em João só o “ele” do autor no fim, sem menção de nome, em 19.35; cf 20.30s, 21.25. Parece que aqui há coerência. Somente os evangelhos apócrifos do século II acharam necessário atribuir-se o prestígio de terem sido escritos por autoridades dos primórdios do cristianismo. Assim, p. ex., o Evangelho de Pedro, do século II, enche a boca para dizer: “Eu, porém, Simão Pedro”. Em oposição a isto, nossos evangelhos canônicos tinham prestígio desde o começo. Seus responsáveis não precisavam destacar-se, por serem conhecidos na cristandade ainda jovem e visível a todos, e nem podiam, porque quem fala realmente nestes livros era, em sentido específico, o Senhor (cf Hb 2.3). Depois que os tempos do início ficaram para trás, e principalmente quando existiam quatro livros do mesmo tipo lado a lado no século II, a necessidade prática impôs de que se fizesse distinção entre estas quatro testemunhas. Foi então que surgiram as indicações de autoria: “Segundo Mateus”, “Segundo Marcos” etc. Esta informação era fixada com um bilhete na haste de madeira do rolo, o que era prático para quem procurava determinado rolo em uma caixa de madeira ou vaso de barro. Mais tarde, quando a Bíblia passou a ser transmitida em forma de códice, este título curto também pôde ser colocado na margem superior de cada folha, para facilitar a procura de passagens. Na página de capa, por outro lado, os títulos costumavam ser ampliados. De Mc 1.1 foi tirado o termo “evangelho”.
Do Evangelho de Mateus, p. ex., existe a sonora descrição “O Santo Evangelho do Apóstolo Mateus”. 
O título curto desobrigava, a princípio, que se desse um nome a este tipo de literatura, pois isto representava uma dificuldade, já que não havia ponto de referência. Somente a partir de meados do século II passou-se a dizer, como é costume até hoje: Estes são os quatro evangelhos! Desta forma, “evangelho”, além de referir-se ao único Evangelho do qual não podia haver imitações (Gl 1.6s), passou a ser o nome de quatro livros. Sendo assim, o título breve “Segundo Marcos” e sua ampliação “Evangelho segundo Marcos” são oriundos do cuidado cristão da Igreja posterior.

Autoria                                                                              
Determinar de forma precisa a autoria desse evangelho é uma tarefa difícil, uma vez que não há, nenhuma parte dessa obra, uma única afirmação direta acerca de sua autoria. Entretanto, com base na afirmação e líderes eclesiásticos que viveram no período pós-apostólico, como Papias de Hierápolis e Eusébio de Cesaréia, este evangelho é produto das mãos de João Marcos, o mesmo mencionado em Atos dos Apóstolos (12.12, 25; 15.37, 39) e nas epístolas paulinas (Cl. 4.10-11; 2Tm. 4.11; Fl. 24; 1Pe.5.12-13).                 Assim escreveu Papias ( a citação abaixo foi preservada por Eusébio de Cesaréia, em sua obra "Histórias Eclesiástica", III,39,15): Marcos, que realmente se tornou o primeiro interprete de Pedro, escreveu com exatidão, tanto quanto podia lembrar, sobre coisas feitas ou ditas pelo Senhor, embora não em ordem. Pois ele nem ouvira ao Senhor nem fora seu seguidor pessoal, mas em período posterior, conforme eu disse, passara a seguir a Pedro, que costumava adaptar os ensinamentos as necessidades do momento, mas não como se estivesse traçando uma narrativa corrente dos oráculos do Senhor, de tal forma que Marcos não incorreu em equívoco ao escrever certas questões, conforme podia lembrar-se delas. Pois tinha apenas um objetivo em mira, a saber, não deixar de fora coisa alguma das coisas que ouvira e não podia incluir entre elas qualquer declaração falsa.                                                                 
O "Marcos" ao qual  o discípulo de Policarpo - Papias - se refere na citação acima é o filho de uma piedosa mulher de Jerusalém, chamada Maria, cuja casa era utilizada para culto de oração e estudos das Sagradas Escrituras ( At. 12.12). Ele, tanto quanto Lucas, não foram testemunha ocular dos feitos de Jesus, não apercebendo, portanto, em nenhum lugar na lista apostólica (Mt.10.2-4; Mc.3.13-19; Lc.6.12-16; At.1.13). Alguns teólogos dizem: as informações que coletou para a composição desses evangelhos foram provenientes das pregações do apóstolo Pedro durante algumas de suas viagens, porém outros estudiosos vão mais afinco.

O testemunho do livro
Será que havia no livro algum ponto de referência quando foi escolhido o título “Segundo Marcos”, no século II? Em lugar algum há uma indicação de autor; o nome Marcos nem aparece. Incorremos em mal-entendido se concluímos disto que o autor quis ou conseguiu ocultar-se dos seus leitores. Ele deve ter sido bem conhecido deles, ou não lhe teriam dado a tarefa de escrever sua obra, e esta não teria alcançado seu prestígio. Os primeiros cristãos viviam em comunidades que se podiam visualizar. Ninguém conseguiria realizar um trabalho como este em segredo, nem fazê-lo circular secretamente. Além disso não era costume, nem apropriado tendo em vista o conteúdo, inserir o próprio nome em um relato das palavras e ações do Senhor.             
Será que mesmo assim ficaram “impressões digitais”?
Alguns comentadores acham que o evangelho de Marcos contém “impressões digitais” do autor (Th. Zahn, Wohlenberg, Rienecker). Fazem também outra comparação: o famoso pintor Rembrandt gostava de pintar a si mesmo dissimulado em seus quadros. De modo igualmente singular, Marcos deu a entender aos conhecedores: aqui está quem escreveu. Trata-se principalmente de quatro passagens que pertencem ao acervo específico de Marcos. Em 14.51s aparece “um jovem” que, devido às suas vestes finas, está cercado de uma aura abastada e aristocrata. Rienecker escreve sobre isto: “Este acontecimento, em si insignificante, só interessa àquele que o protagonizou, que só pode ter sido o próprio Marcos”. Ele fora testemunha ocular e auricular, e aqui se dá a conhecer como fiador da tradição.Em 14.13 lemos sobre “um homem trazendo um cântaro de água”, que aparentemente sabia de tudo. Ele já esperava pelos dois discípulos, sem mais perguntas os conduz pelo caminho e os leva à casa certa. Em seguida, no versículo 19, alguns manuscritos acrescentam (cf RC): “E outro: Porventura sou eu, Senhor?” Já que a frase anterior fala dos discípulos, este “outro” poderia ser um morador da casa. Isto aponta de novo para o homem do cântaro.Por fim, em 10.17 se registra que “correu um homem ao encontro” de Jesus, para quem Jesus depois olha com carinho. Pensa-se que este moço abastado bem poderia ter sido (o próprio) Marcos. Só ele poderia ter sabido deste olhar de Jesus.
O resumo fica assim: Em Jerusalém havia o filho de uma família conhecida e rica, que não fazia parte dos discípulos de Jesus mas acompanhava os acontecimentos mais íntimos e estava bem informado. Disto se conclui: Os membros da igreja de Jerusalém, que naturalmente conheciam este homem, nestas passagens o teriam reconhecido. Trata-se do João Marcos do livro de Atos, o filho da viúva Maria, que colocou seus bens à disposição primeiro de Jesus e depois da primeira igreja. Estas colocações aparentemente se encaixam muito bem, mas o termo “um” nem sempre é tão significativo. Ele pode ser bem neutro (p. ex. 12.42, 14.3,47). E, mesmo que este jovem ou homem fosse cada vez a mesma pessoa, Marcos no caso, isto ainda não prova que este Marcos escreveu o evangelho. Isto só diz a próxima suposição. Assim, enfileiram-se suposições para atingir o alvo. Em conclusão: o testemunho do livro não leva a uma informação clara. Continuamos com um autor anônimo, cercado de suposições.                                                                          
As fontes de Marcos
A comparação dos primeiros três evangelhos comprova que naquela época as histórias sobre Jesus não eram contadas com palavras próprias, mas seguindo relatos mais antigos.  A observação de Papias credita a Marcos só uma fonte: Pedro! Mas isto certamente é uma simplificação. Como filho da casa da qual os primeiros cristãos entravam e saíam, ele não deve seus conhecimentos a uma só testemunha. De acordo com tudo o que sabemos sobre o primeiro grupo de discípulos, Pedro tinha um papel de liderança antes e depois da Páscoa, mas ele não era a única testemunha. Lucas confirma em seu evangelho (1.1,2): desde o começo havia um número considerável de testemunhas oculares, de relatos por escrito e – podemos completar, em retrospecto – de evangelhos. Uma parte considerável do material de Marcos pode remontar a Pedro ou ter alguma relação com ele, mas não tudo. De fato, o próprio evangelho de Marcos traz indícios de que dispunha de mais subsídios orais e documentos escritos. Veja estas indicações, que todo leitor da Bíblia pode conferir: Marcos menciona 81 vezes o nome “Jesus”, o que dá em média uma referência a cada oito versículos. Bem no meio, porém, entre 6.30 e 8.27, temos 90 versículos em sequência sem uma só menção deste nome; ali só encontramos o pronome pessoal para identificar o Senhor. Isto parece indicar um outro texto-base.O leitor da Bíblia também conhece a expressão típica de Marcos “logo”, “então”, “imediatamente”. Só no primeiro capítulo ela aparece onze vezes, ao todo 43 (em Mateus ela só é usada oito vezes, em Lucas e João só três cada). Olhando com atenção, porém, vê-se que a sua distribuição por capítulos é bem irregular. Na primeira metade do livro, até 8.26, temos 35 casos. Depois a palavra quase que desaparece, para reaparecer em duas histórias (9.15,20,24 e 14.43,45). “Logo”, portanto, não é típico de Marcos em si, mas de uma ou algumas de suas fontes. No capítulo 1, o primeiro discípulo é cinco vezes “Simão”, mas depois ele é sempre, 20 vezes, mencionado por seu cognome “Pedro”. Exceções são 3.16 (os dois juntos) e 14.37 (quando Jesus se dirige a ele).Jesus também não é chamado de maneira uniforme. Na primeira metade, ele só é chamado de “mestre” (oito vezes), depois só mais duas vezes, alternado com quatro usos do termo aramaico correspondente, “rabi”. Dn 7.13 é citado duas vezes, mas de forma diferente. Em 13.26 é “nas nuvens”, em 14.62 “com as nuvens”. Estes exemplos de terminologia não uniforme são fáceis de suplementar (cf Pesch I, p 15ss; II, p 3ss). Existe maneira melhor de explicar estas disparidades do que no evangelho de Lucas: que os evangelhos, inclusive o de Marcos, se baseavam em várias testemunhas! Ao mesmo tempo, estes exemplos mostram como Marcos lidava com suas fontes. Ele poderia tê-las retrabalhado profundamente, dando ao seu livro uma consistência estilística. Lucas fez mais ou menos isto, mais tarde. Pode-se ver isto nos trechos que ele assumiu de Marcos. Ele não deixou quase nenhuma linha sem correção estilística. Marcos, por sua vez, sentia que suas mãos estavam amarradas. Só com muito receio ele interveio aqui e ali. Em razão disto, seu livro não poucas vezes parece tosco em termos linguísticos (veja o ponto 4 a seguir). Sua contribuição pessoal consistiu na seleção e disposição do material, na tradução de palavras aramaicas, no esclarecimento de costumes judaicos (7.3,4), em pequenas explicações e indicações (2.28; 7.11b,19b; 13.14; 14.18), em ampliações com efeito de atualização (10.12) e, principalmente, em condensações (p. ex. 3.7-12). Compare os detalhes dos comentários sobre estes trechos, bem como a nota prévia 1 a 2.18-22.Se Marcos, portanto, entrelaçou várias fontes, será que é possível desfazer estes laços? Será que podemos verificar onde uma fonte termina e começa a outra? Suas fontes podem ser reconstruídas e separadas das contribuições dele? Especialmente em Marcos este empreendimento incorre em muitos fatores de insegurança. Há uma diferença com os evangelhos posteriores. Nestes, naquilo em que Marcos lhes serviu de base, podemos comparar a fonte com o resultado, verificar linha por linha as diferenças e deduzir métodos de trabalho. Esta possibilidade não temos em Marcos. Não é possível deduzir sem margem para dúvidas seu estilo redacional a partir da tradição. Apesar disso, alguns pesquisadores oferecem soluções “perfeitas”, classificam cada expressão, até cada “e” e “ou” neste ou naquele lado. Acham que podem fazer listas de vocábulos “marquínicos”, que usam com desenvoltura. Estes pesquisadores, porém, sabem tanto que temos de desconfiar deles, e é possível que suas conclusões tenham muito pouco a ver com o Marcos histórico.
As tentativas de reconstrução das suas fontes com frequência resultam tão diferentes, que pensamos estar em um contorcionismo literário. Comentadores sensatos sentem que este tipo de pesquisa de Marcos de modo geral está pisando em solo pantanoso. Sempre devemos fazer análises críticas para chegar a uma compreensão das fontes que envolveram o evangelho de Marcos. Para um bom seminarista, a observação do que está sendo estudado, analisado e apresentado por outras fontes, seve de ferramentas para tirar boas conclusões. Paz de Cristo!
Até a próxima postagem.                                                   

Referências Bibliográficas;
 Comentário Esperança de Adolf Pohl. Introdução ao Novo Testamento de Roberto dos Reis (IBAD). Comentário Bíblico. Rio de Janeiro: Editora CPAD. 
Por Que 4 Evangelhos? São Paulo: Editora Vida.
Prof°.; Euler Lopes